Friso

Anatomia de um final


Quando entramos na sala onde decorre o torneio reparamos que esta se encontra praticamente vazia: estamos na quinta hora de jogo e já muitas das partidas terminaram. Mas numa das mesas os dois jogadores mantêm-se atentos ao tabuleiro. Ao aproximarmo-nos reparamos que o material é escasso:



À primeira vista tudo está igual: dois peões para cada lado e um bispo também para cada lado. Continuando a observar a posição deduz-se que devem ser as brancas a jogar, já que no caso contrário as pretas ganham imediatamente uma peça (o bispo em a4), e com isso o jogo.

Surgem então as primeiras questões: defender ou atacar? Retirar o bispo (e para onde) ou contra-atacar?
Mas que contra-ataque? E quais as suas hipóteses?

Bem, a única ideia é ir tentar fazer dama, e para isso é preciso criar um peão passado (peão que não tem nem em frente, nem nas colunas adjacentes, um peão adversário). Observa-se então a primeira desigualdade: as pretas já têm um peão passado (o peão em a5), enquanto que as brancas ainda têm de criar um.

Tendo em vista a criação um peão livre (sinónimo de passado), há dois planos: marchar com o rei até à casa e6 e tentar capturar o peão d6 ou jogar imediatamente e5.

O primeiro plano cai logo por terra já que após 1.Rf5, 1... Rxa4 liberta a diagonal para o bispo negro, que agora segura o peão d6, pelo que as brancas devem jogar 2.e5, mas isto significa uma perca de tempo, de maneira que passamos ao plano B: avançar o peão de rei imediatamente: 1.e5

As pretas não devem agora cometer o gravíssimo erro de precipitadamente capturarem o bispo com 1. ... Rxa4?, já que isso acarretaria a derrota, pois nesse caso as brancas aproveitam o facto de o peão negro em d6 bloquear a acção do seu bispo jogando o decisivo 2.e6!, contra o qual as pretas se encontram indefesas:



O peão branco está a dois passos de fazer dama e, o que podem fazer as pretas? Nada: o bispo encontra-se bloqueado na sua acção pelo seu peão em d6, enquanto que o rei está fora do quadrado, pelo que a promoção é inevitável!

Mas dominando esse primeiro impulso de capturar imediatamente o bispo, as pretas iludem a cilada e intercalam uma simples troca de peões, posto o que já é seguro (e decisivo também) capturar o bispo: 1... dxe5+! (Repare-se como esta jogada intermédia é eficaz, ou seja, as brancas não têm tempo de retirar o bispo atacado porque estão debaixo de xeque!) 2.Rxe5 Rxa4 e agora a vitória é fácil:



Se 3.d6 Bxd6 (note-se como agora o bispo pode intervir decisivamente) 4.Rxd6 Rb3 e o avanço do peão decide; se 3.Rd4 segue-se 3. ... Rb3 e o avanço do peão é igualmente imparável.

Bem, está então visto que o contra-ataque não resolve, pelo que resta retirar o bispo atacado. E voltamos à questão: retirá-lo para onde?

Antes de procurarmos a resposta proponho uma posição interessante, onde as brancas têm desvantagem material mas as pretas têm todas as suas forças desfavoravelmente colocadas:



A compreensão cabal desta posição vai ajudar-nos a entender melhor toda a linha da defesa. Aqui é decisivo quem joga, porque a sorte da partida varia consoante forem as brancas ou as pretas a jogar. Assim, caso sejam as brancas, estas fazem a sua única jogada ativa, a qual contudo é suficiente para alcançar o ambicionado empate: 1. e5! Caso as pretas não capturem o peão as brancas eliminam o peão preto, após o que o material restante é insuficiente para dar mate. Segue-se então 1. ... dxe 2.d6



Repare-se que o rei preto se encontra fora do quadrado do peão passado, pelo que a tarefa de o deter recai sobre o bispo; as brancas aproveitam-se disso para irem capturar o único peão que resta às pretas. 2. ... Rb5 (ou 2. ... Bg5.3.Re4 Bf6 4.d7 Rb5 5. d8=D seguido de 6.Rxe5) 3. d7 Bg5 7. Re4 Rc6 8. d8=D Bxd8 9.Rxe5

O que se pode concluir daqui é que a posição desvantajosa das peças pretas permite às brancas levarem a cabo uma rutura que elimina o peão negro de e5. Mas caso fossem as pretas a jogar, o lance 1. ...Bb2! decidiria o jogo a seu favor, uma vez que a rutura seria neutralizada com Bxe5.

Retomemos então a posição inicial do nosso artigo. Pelo que se viu até agora são as brancas que têm de lutar pelo empate. Assim sendo surgem duas ideias: ou eliminar todos os peões pretos (já que rei e bispo não conseguem dar mate), ou então garantir que o peão passado não promove (impedindo o seu avanço, por exemplo).

Uma das ideias base do xadrez é a flexibilidade, ou seja, dispor as peças no tabuleiro de modo a que vários planos (ou alternativas) sejam possíveis. Trata-se então de encontrar uma diagonal efetiva para o bispo: a de a4-e8 ou a de a4-d1.

O jogador experiente sabe que normalmente o peão precisa de ajuda para coroar – neste caso precisa do seu rei; logo, com o bispo na diagonal a4-e8 não se controlam as casas brancas próximas da casa de promoção.

Eis uma possível variante: 1.Bc6? Bb2! (despejando o caminho para o peão passado e controlando a casa crítica e5) 2.Re3 a4 3.Rd2 Rb3 (cá está o acesso às casas brancas) 4.e5 (uma tentativa infrutífera) 4... Bxe5 5.Rc1 a3 e não se consegue impedir a coroação.

Se pelo contrário o bispo é colocado na diagonal a4-d1 as coisas mudam de figura radicalmente: graças ao controle das referidas casas brancas (nomeadamente a casa b3) as pretas não conseguem promover o peão.

Eis algumas variantes que ilustram o anteriormente dito:
1.Bd1! Bc1+ (procurando ganhar um tempo ao desimpedir o caminho para o peão dando xeque) 2.Rf3 Bb2 (se diretamente 2. ...a4 3.Bxa4 Rxa4 4.e5 dxe5 5.Re4 Bf4 6.d6 Rb5 7.d7 Bg5 e elimina-se o último peão negro).

Observe-se que ao realizar o seu último lance (Bb2) as pretas reconhecem que não podem progredir sem segurar o peão de e5.

3.Re2 a4 4.Rd3 e o rei chega a tempo: 4. ... a3 5.Rc2 com uma fortaleza inexpugnável (leva-se o bispo até à casa f5)

Outra variante:
1. ... Bb2 2.Re3 a4 3.Rd3 Be5 4.Rc2 Bd4 5.Rb1 a3 6.Ra2 Bc5 7.Bg4 Rc3 8.Bf5 e as pretas não conseguem progredir.

Ou ainda: 1... Rc3 2.Ba4 Bc5 3.Bd1 Rb4 4.Bc2 a4 5.Bxa4 Rxa4 6.e5 dxe5+ 7.Rxe5

Curiosamente 1. Bd2? perde, uma vez que as pretas conseguem, graças ao ganho de um simples tempo ao aproximar o rei atacando o bispo, manobrar de modo a colocar o bispo em e5 (retirando todas as veleidades de contra-jogo baseadas no avanço e5 e simultaneamente controlar as casas pretas próximas da promoção do seu peão) e avançar o peão a sem permitir que o rei branco se aproxime.

Em jeito de rescaldo podemos deduzir algumas regras muito úteis:
  • Ao contrário da abertura e do meio jogo, o rei desempenha um papel muito ativo nos finais.
  • A criação de um peão passado é um factor estratégico primordial, condicionando os planos de ambos os jogadores.
  • Nos finais de bispos devemos colocar os nossos peões em casas de cor contrária ao do nosso bispo, para que aqueles não estorvem a acção deste.
  • Do ponto de vista tático, há que ter sempre em conta a jogada intermédia.

E assim me despeço dos meus leitores. Até à próxima!